sexta-feira, 12 de junho de 2020

Barra do Piraí, 12 de junho de 2020.


Aos meus Irmãos, Camaradas e Companheiros.

                                                                                 “Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
                                                                                  Que uma nova mudança, em breve, vai acontecer
                                                                                  E o que algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo
                                                                                  E precisamos todos rejuvenescer”. Belchior



Compartilho aqui com vocês um trecho do meu livro publicado em 2018. Faço isso porque sinto necessidade de contribuir para trazer de volta o ânimo, o espírito de luta por justiça e igualdade. Acredito que estamos vivendo tempos difíceis no Brasil, desde 2015. Parece-me até que durante todo este período uma nuvem gigante contendo algum tipo de droga inebriante estacionou sobre nosso país.

Porém, uma luz, ainda que meio tímida, começa a brilhar e aos poucos vêm aumentando sua intensidade. Sim, eu consigo perceber isso, pois conforme canta Belchior, “vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação, eu sinto tudo na ferida viva do meu coração”. Sinto e vejo por que a ferida está viva no meu coração, assim como acredito que está também no coração de vocês. Então, quantas coisas boas, na Europa e em toda a América, tem acontecido atualmente devido algumas insurreições populares contra os donos do poder político e econômico. São coisas que nos faz pensar e acreditar no mundo melhor.

Sei que além de um novo vento temos também um novo vírus que veio para nos fazer refletir sobre a vida que vivemos. Não seremos ingênuos para acreditar que todos vão mudar de atitude, de comportamento e chegaremos ao ideal liberdade, igualdade e fraternidade entre nós. Sabemos que o mal provocado pelo capitalismo não é superficial, pelo contrário está enraizado nos corações de algumas pessoas e, isso as deixam cegas de egoísmo, de individualismo e de preconceitos, sentimentos que as destroem, aniquilam e as tornam insensíveis ao próximo.

Uma nova história precisa ser construída de preferência sem opressores e oprimidos, o modelo positivista acabou. Para tanto, é necessário que nos livremos de monumentos, como por exemplo, o dos Bandeirantes erguido na cidade de São Paulo, pois é uma afronta aos povos indígenas, nativos desta terra, é bom que não nos esqueçamos, e ao negros, ambos perseguidos, violentados e mortos por essa milícia armada. Não precisamos de monumentos para homenagear gente, muitas das vezes construídas por mentiras e com um único objetivo, manter-se no poder.

A nova história deve ser construída com base sólida na verdade e na liberdade. Onde todos venham fazer parte dela. Sendo assim, temos um importante compromisso com tudo isso, lembrando Belchior, “Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz”.


                                                                                        João Crispim Victorio.


Bandeirantes, vilões feitos heróis[1]
João Crispim Victorio[2]
    
A ideia aqui é falar, de forma resumida, sobre os acontecimentos bárbaros que ocorreram na época do Brasil Colônia. Dê um lado, o governo português que, com sua obstinação nas riquezas do Brasil, foi explorando a qualquer custo o interior do país. Do outro lado, os indígenas, originários da terra, que se encontravam no caminho e, por isso, foram assassinados e tiveram suas mulheres e crianças violentadas pelas milícias armadas que oficialmente receberam o nome de Entrada ou o nome não oficial, Bandeiras.
     Os bandeirantes foram homens contratados pela Coroa portuguesa no princípio da colonização do Brasil. De início, visavam a captura dos índios para utilização da sua mão de obra nas plantações. Tempos depois, o objetivo era o de capturar negros escravos fugitivos e dominar indígenas rebeldes. Estes homens, que eram em sua maioria paulistas, além de atuarem na captura de escravos e assassinatos de indígenas, atuaram também na procura de pedras e metais preciosos pelo interior do Brasil.
Os Bandeirantes saíam da cidade de São Paulo e de São Vicente, litoral paulista, atingiam o interior do Brasil através das florestas e seguindo o curso dos rios como, por exemplo, o rio Tietê. Estas expedições de homens armados e violentos eram, enquanto explorações territoriais, chamadas de Entradas ou Bandeiras. As Entradas eram expedições oficiais organizadas pelo governo, as Bandeiras eram financiadas por senhores de engenho, donos de minas, comerciantes.
A partir do século XVII, o interesse do governo português passou a ser por ouro e pedras preciosas, que se concentravam nas regiões de Minas Gerais. Alguns outros bandeirantes foram para além da linha do Tratado de Tordesilhas[3] e descobriram o ouro. Muitos aventureiros os seguiram no Brasil central, dando início à formação das primeiras cidades.
Podemos dizer que os bandeirantes foram responsáveis pelo desbravamento e pela expansão do território brasileiro para além das fronteiras determinadas pelo Tratado de Tordesilhas, pois foi assim que ficaram historicamente conhecidos. Contudo, não podemos esquecer que esses mesmos homens agiram de forma violenta na caça de indígenas e de negros escravos foragidos, contribuindo para a manutenção do sistema escravocrata que vigorava no Brasil Colônia.
Essa é apenas uma parte de nossa história, infelizmente contada ainda hoje, tomando por base os ideais positivistas da historiografia, ou seja, valorizando os personagens que, de alguma forma, obtinham algum tipo de poder opressor em detrimento dos oprimidos. Nesse caso, temos por um lado, os bandeirantes, grupo formado por homens brancos europeus, aliados dos poderosos e, por outro lado, os indígenas, gente tratada com preconceitos e, por isso, marginalizada até os dias de hoje. Sendo assim, a história que prevalece é a das bandeiras, mesmo sendo uma história de violência contra os indígenas que foram praticamente dizimados, os que foram capturados foram escravizados, obrigados ao trabalho forçado tal qual os negros trazidos da África que os sucederam.






[1] Trecho extraído do livro Nativos de Pindorama: conhecer para respeitar é preciso. Editora Autografia, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2018.

[2] Professor, Especialista em Educação e Poeta. Autor do livro: Nativos de Pindorama: conhecer para respeitar é preciso. Editora Autografia, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2018.

[3] Tratado assinado em 7 de junho de 1494, em Tordesilhas – Espanha, entre Espanha e Portugal para resolver os conflitos sobre as terras recém-descobertas no Novo Mundo no final do século XV.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Dos braços da mãe

Há anos
Há muito tempo
Quantos anos?
Quanto tempo?

Parece que foi ontem
homens, mulheres e crianças
arrancados dos braços da mãe
África de muitos encantos...

Atravessaram o Atlântico
levados pelo vento
Negros corpos humanos
amontoados nos porões
amontoados no fundo do oceano
Diabólicas caravelas
comandadas por homens insanos...

Há anos
Há muito tempo
Quantos anos?
Quanto tempo?

Parece que foi ontem
as praças da beira do cais
exibindo corpos negros
para capitalistas brancos...

Quanto vale o negro?
Quem determinava isso?
Almas decentes
avaliadas pelos dentes
avaliadas por desalmados
Gente sem escrúpulos
gestando sociedades doentes...

Há anos
Há muito tempo
Negros arrancados da mãe
África de muitos encantos...

Quantos anos?
Quanto tempo?
Vamos ter que suportar isso
Hoje digo basta, sem engano...


João Crispim Victorio
   Barra do Piraí, 08 de junho de 2020.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O Dia Mundial do Meio Ambiente e as Atuais Políticas Devastadoras.
Por João Crispim Victorio[1]

O dia 5 de junho foi institucionalizado como Dia Mundial do Meio Ambiente pela Organização das Nações Unidas, com o objetivo de sensibilizar a população do planeta para ações relacionadas à preservação ambiental. Nesse sentido, a cada ano, trabalha-se um tema ambiental diferente no intuito de conscientizar os povos dos problemas que o meio ambiente é constantemente afetado, principalmente, por processos de degradação decorrentes das ações do homem.

A necessidade de preservação ambiental tem sido objeto de preocupação há décadas e, diante disso, no ano de 1972, realizou-se a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, na cidade de Estocolmo, na Suécia. A Conferência contou com a participação de representantes de 115 países e de diversas organizações de diferentes segmentos. Estabeleceu o dia 5 de junho como o Dia Mundial do Meio Ambiente e criou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que coordena os trabalhos da Organização das Nações Unidas relacionados ao tema.

Esta Conferência das Nações Unidas, realizada em 1972, produziu alguns princípios com o objetivo de inspirar e guiar as populações para a preservação e melhoria do meio ambiente humano. Vejamos alguns desses importantes princípios:

“O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras. A este respeito, as políticas que promovem ou perpetuam o apartheid, a segregação racial, a discriminação, a opressão colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira são condenadas e devem ser eliminadas;

Os recursos naturais da terra incluídos o ar, a água, a terra, a flora e a fauna e especialmente amostras representativas dos ecossistemas naturais devem ser preservados em benefício das gerações presentes e futuras, mediante uma cuidadosa planificação ou ordenamento;

O homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio da flora e da fauna silvestres e seu habitat, que se encontram atualmente, em grave perigo, devido a uma combinação de fatores adversos. Consequentemente, ao planificar o desenvolvimento econômico deve-se atribuir importância à conservação da natureza, incluídas a flora e a fauna silvestres;

Os recursos não renováveis da terra devem empregar-se de forma que se evite o perigo de seu futuro esgotamento e se assegure que toda a humanidade compartilhe dos benefícios de sua utilização.”

No Brasil, a Semana Nacional do Meio Ambiente é comemorada na primeira semana do mês de junho e no dia 5 se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente. A semana foi criada pelo Decreto nº 86.028, de 27 de maio de 1981, com o objetivo de conscientizar a comunidade sobre a importância de preservar os diferentes tipos de ecossistemas e de complementar a celebração ao Dia do Meio Ambiente instituído pela ONU. A iniciativa visa incluir a sociedade brasileira na discussão de pautas que tratem da preservação do patrimônio natural. Um dos meios utilizados para desenvolver tal tarefa seria o de palestras nas escolas sobre o consumo sustentável.

Mas, infelizmente, não é isso que estamos vivenciando atualmente em nosso país. A Mata Atlântica, que na época da chegada dos portugueses era tão exuberante quanto a floresta Amazônica, cobrindo cerca de 15% do território nacional, a segunda maior floresta tropical do Brasil, se estendendo por 17 estados, do Sul ao Nordeste, abrangendo uma área equivalente a 1.315.460 km², hoje agoniza. Restam apenas 12,4% da floresta original, pior, o que resta está ameaçada pelo atual ministro do Meio Ambiente, que quer, além de outras coisas, anistiar os proprietários rurais que destruíram grande parte das áreas desse importante bioma, cruelmente devastado. Ele se aproveita da pandemia do covid-19, para, segundo ele, “passar os bois, enquanto a imprensa dá uma trégua ao governo por se preocupar com a pandemia”. Isso não é postura de um ministro. Muito menos do ministro do Meio Ambiente de um país tão rico em biomas e biodiversidades igual ao Brasil.

Não para por aí, a floresta Amazônica, também, está agonizante. O governo federal e seus ministros colocam a ideologia ultradireita em prática desde quando tomaram posse nos cargos. Fazem valer a política do caos, do quanto pior melhor e todos nós sofremos com isso. Os indígenas, por exemplo, que tem a Terra como um organismo vivo, sofrem vendo a mãe sangrando, quase que em hemorragia, devido às enormes feridas abertas em seu corpo nos últimos dois anos.

A floresta sofre com as queimadas, com as derrubadas de árvores, com as invasões criminosas de madeireiros e garimpeiros que contaminam os índios com seus vírus e bactérias, a mãe Terra e as águas dos rios com suas toneladas de agrotóxicos liberados por este governo, despejados indiscriminadamente para aumentar seus lucros rápidos em detrimento das vidas ali existentes. Então, o que temos a comemorar?


Barra do Piraí, 04 de junho de 2020.


Referências:




Disponível em <https://news.un.org/pt/tags/onu-meio-ambiente>acessado em 04/06/2020.

[1] Professor, escritor e poeta.





segunda-feira, 25 de maio de 2020


Novos ventos

A possibilidade da felicidade
só é possível quando no coletivo
Essa é a única verdade
Novos ventos estão chegando...

Pensar apenas em si
sem incluir todos os outros
não tem mais razão de ser
O individualismo chegou ao fim...

Não pode o dinheiro determinar
nossos direitos e obrigações
somos seres sociais
Ponto final dessa questão...

No fundo não somos indivíduos
como nos impõe o capitalismo
Somos pessoas diferentes
ao mesmo tempo iguais, pensem nisso...


Barra do Piraí (Ipiabas), 25 de maio de 2020.
João Crispim Victorio

sábado, 16 de maio de 2020

O Renascimento, a Revolução Científica e os Índios Brasileiros 
João Crispim Victorio[1]

O Renascimento foi um movimento cultural, econômico e político que surgiu na Itália, nas cidades de Veneza, Gênova e Florença, do século XIV. Se consolidou no século XV e se estendeu até o século XVII, por toda a Europa. O movimento cresceu e consegui romper com a escolástica, que dominou toda a Idade Média, tornando possíveis algumas modificações na estrutura da sociedade, culminando em reformulações da vida medieval, dando início à Idade Moderna, período que corresponde ao final do Feudalismo e início do Capitalismo.
As manifestações precursoras desse movimento se deram por meio dos poetas Petrarca e Boccaccio[2], que inspirados nos valores da Antiguidade Clássica, incentivaram outros poetas, além de pintores, escultores e escritores, desafiando a filosofia de vida da época. Nesse momento, uma importante mudança no modo de ver o mundo estava nascendo, deixava-se de lado o pensamento teocêntrico, para uma visão de mundo antropocêntrica. Ou seja, caía por terra uma doutrina que explicava tudo a partir de uma origem divina, substituindo-a por um novo pensamento onde o homem passa ter papel central em relação ao Universo.
Neste sentido, os renascentistas divulgavam que a razão era o único caminho para se chegar ao conhecimento e, que pela razão e pela ciência, tudo podia ser explicado. De acordo com esse pensamento a razão era uma manifestação do espírito humano que ao exercer sua capacidade de questionar o mundo, dava vazão a um dom concedido por Deus.
Nesta perspectiva, surge o Humanismo, um movimento intelectual de valorização da condição humana, suas realizações e descobertas nos campos da ciência, da literatura e das artes. Um movimento de glorificação do homem e da natureza humana, que na sua essência, buscava interpretar o cristianismo utilizando as obras de Platão[3]. Dessa forma o homem, obra perfeita do Criador, teria a capacidade de compreender, modificar e até mesmo dominar a natureza. Tal pensamento provocou mudanças no ensino universitário, com a introdução de disciplinas poesia, história e filosofia.
Durante o Renascimento surgiu uma nova classe social, a burguesia. Isso só foi possível devido ao desenvolvimento naval que proporcionou a expansão marítima por meio das “Grandes Navegações” dinamizando o comércio e fortalecendo as pequenas cidades, caracterizadas pela vida em trânsito, entre o urbano e o rural. Em torno dessas cidades eram formados pequenos vilarejos que dependiam do que as mesmas tinham a oferecer, isto é, trocas, compra e venda de produtos, feiras, todo tipo de serviços, pontos de encontro de mercadores e camponeses. 
No campo científico, o Renascimento foi marcado por importantes descobertas. Podemos destacar os estudos de astronomia que se consolidou com a teoria heliocêntrica[4], defendida por Nicolau Copérnico, depois por Galileu Galilei e por Giordano Bruno. Estudos importantes que foram antes produzidos por Ptolomeu[5]. Tal concepção abalou o monopólio dos saberes, até então controlados pela Igreja, além de muitas outras descobertas no campo da física, da medicina, da matemática e da geografia.
O polonês Nicolau Copérnico, negou a teoria geocêntrica[6] defendida pela Igreja e afirmou que a terra não era o centro do universo, mas simplesmente um planeta que gira em torno do Sol. Galileu Galilei descobriu os anéis de Saturno, as manchas solares, os satélites de Júpiter. Mas teve que negar publicamente suas ideias e descobertas, pois foi perseguido e ameaçado pela Igreja. Na medicina os conhecimentos avançaram com trabalhos e experiências sobre circulação sanguínea, métodos de cauterização e princípios gerais de anatomia.
O Renascimento científico na Europa foi responsável pela criação de técnicas que fundamentaram a ciência moderna. O Método Científico, com a elaboração de hipóteses e as observações experimentais, elaborados por Francis Bacon[7], foi o princípio fundamental para o desenvolvimento que ocorreria nas ciências nos séculos seguintes, em especial no período do Iluminismo[8]. O cientificismo tratou de diversas questões sobre o conhecimento em diversas áreas científicas como a Biologia, Matemática, Física, Astronomia, Botânica, Anatomia, Química, que foram importantes para a mudança de pensamento da humanidade.
Como visto antes, o Renascimento foi um movimento cultural, econômico e político que se iniciou na Europa, no século XIV. Durante o período surgiu a burguesia e o meio científico foi marcado por importantes descobertas que facilitaram, por exemplo, “As Grandes Navegações”, ou seja, a expansão marítima onde países da Europa, particularmente Portugal e Espanha, passaram a colonizar as terras já habitadas no chamado “Novo Mundo”.
É bom salientar aqui que quando falamos de “Novo Mundo”, visão eurocêntrica da América, estamos nos referindo ao Continente Americano que é banhado pelo Oceano Atlântico a Leste e Pacífico a Oeste. Temos duas importantes divisões regionais, uma divide o Continente em América do Norte, América Central e América do Sul[9], e a outra o divide em América Latina e Anglo-Saxônica. A América Latina engloba os países da América do Sul e Central em conjunto com o México, já a América Anglo-Saxônica conta apenas com Estados Unidos e Canadá.
No nosso caso específico vamos nos referir a América do Sul, formada por seus 12 países entre estes o Brasil. Segundo VICTORIO (2018, p.15) “Antes da chegada, aqui, de Cristóvão Colombo e depois de Pedro Alvares Cabral, as Américas já eram ocupadas por vários povos”. Sendo assim, quem eram e quantos eram esses povos? Como se organizavam social e culturalmente? Perguntas estas que na época, nem talvez hoje, tenham sido feitas, e lógico não foram respondidas. Isso, porque, conforme Victorio,

Durante quase cinco séculos, os índios foram pensados como seres em transição para a civilização ou, por fim, o desaparecimento. Isso significa dizer que tinham uma escolha a fazer, porém, em ambos os casos, desfavorável a eles. (VICTORIO, 2018, p.18) 

Infelizmente é dessa forma que os nativos brasileiros são vistos. É uma pena que nossa sociedade, ainda, não tenha percebido que os indígenas possuem, cada grupo de forma diferente, suas tradições, seus idiomas e suas manifestações artísticas e culturais. Assim, também, como a maneira de educar, de fazer ciência e de se relacionar com a natureza.
Ainda, conforme Victorio:

Na concepção indígena, o mundo é uma grande rede de relações entre humanos e não humanos. Isso significa dizer que os homens estão sempre interagindo com a natureza, dependem dela e, ao mesmo tempo, são parte dela. (VICTORIO, 2018, p.71) 

Dessa forma, temos que considerar e respeitar os saberes indígenas gerados a partir de milhares de anos de observações se experiências empíricas compartilhadas no intuito de garantir o modo específico de vida. Para eles o acesso ao saber científico está ao alcance de todos, são públicos, embora sejam respeitadas as competências e as aptidões individuais, como as de domínio do pajé.
Os índios, por exemplo, sempre trabalharam com fitoterápicos, ciência que existe no meio indígena há séculos, utilizando a flora na prevenção e na cura de todos os males. Assim também ocorre com a Astronomia indígena, suas constelações e o os humanos vivem intimamente conectados e nessa profunda conexão o céu, os astros e a terra são uma coisa só.
Por tanto, é bom ter clareza que da mesma forma que a vida, em toda sua dimensão acontecia na Europa, na África, na Ásia, na Oceania e na Antártida, nos últimos mil anos, também acontecia nas Américas. Hoje, sem dúvidas, com as novas descobertas antropológicas e paleontólogas podemos dizer que a ciência indígena, apesar de empírica, vem contribuindo na universalização e sistematização do saber com suas tradições milenares.


BIBLIOGRAFIA:

CHASSOT, Áttico. A ciência através dos tempos. 2ª edição, São Paulo: Moderna, 2004.
FERNANDES, Luiz Estevam de Oliveira; FERREIRA, João Paulo Mesquita Hidalgo. “A nova medida do Homem”. In: Nova História Integrada – Ensino Médio Volume Único. Campinas: Companhia da Escola, 2005. pp. 111-112.
GOMBRICH, Ernest H. A história da arte. Rio de Janeiro: Editora LTC, 2011.
LIMA, Lizânias de Souza; PEDRO, Antonio. “O Renascimento e a cultura na época do absolutismo”. In: História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005. pp. 154-155.
JANSON, H.W. História geral da arte: Renascimento e Barroco. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
SOUSA, Rainer Gonçalves. "Renascimento"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/renascimento.htm. Acesso em 29 de abril de 2020.
VICTORIO, João Crispim, Nativos de Pindorama: Conhecer para respeitar é preciso. Rio de janeiro: Autografia, 2018.

[1] Professor, Especialista em Educação e Poeta. 
[2] Francisco Petrarca e Giovanni Boccaccio, foram filósofos, críticos literários e poetas italiano que lideraram o surgimento do Renascimento humanista.
[3] Platão foi um filósofo do período clássico da Grécia, discípulo de Sócrates e o primeiro teórico idealista. Autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. Escreveu sobre diversos temas, como amor, amizade, política, justiça, imortalidade da alma, entre outros.
[4] O heliocentrismo é o atual Modelo de configuração do Sistema Solar. Diz que a Terra gira ao redor do Sol com certa periodicidade e velocidade. Esse movimento define as estações do ano e o dia e a noite.
[5] Cláudio Ptolomeu foi um cientista, astrônomo e geógrafo de origem grega. Foi um dos últimos grandes cientistas do mundo helenístico, autor dos estudos de astronomia mais importantes produzidos antes de Copérnico.
[6] Modelo mais antigo de configuração do Sistema Solar. Essa ideia remonta desde a Antiguidade. Segundo o qual a Terra era o centro do Universo, com todos os planetas e o Sol girando ao seu redor.
[7] Francis Bacon (1561-1626) foi filósofo, político e ensaísta inglês. Foi importante na formulação de teorias que fundamentaram a ciência moderna. É considerado o pai do método experimental.
[8] O movimento Iluminista foi um influente processo cultural, social, filosófico e político que tem suas origens no século XVII, com a Revolução Industrial. Possibilitado pela pesquisa efetuada por René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1643-1727), se desenvolveu plenamente durante o século seguinte.
[9] A América do Norte: Canadá, Estados Unidos e México.
A América do Sul: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
A América Central: Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago.




Vacinas e o movimento pendular da história
João Crispim Victorio*

“...Noites em silêncio
dias inteiros sonhei
Viajei em minha astronave deslumbrante
milhões de imagens vislumbrei...”

      As vacinas são substâncias produzidas a partir de agentes patogênicos[1], introduzidos no organismo humano no intuito de estimular reações no sistema imunológico desencadeando anticorpos[2] que tornam o indivíduo imune ou ao menos resistente ao agente e às doenças que ele provoca. Ou seja, quando uma pessoa é vacinada, pelo vírus do sarampo, por exemplo, seu sistema imunológico produz anticorpos em uma velocidade suficiente para combater o invasor, evitando que a pessoa fique doente.
      Todo processo de constituição da vacina tem início no século XVIII, com as pesquisas voltadas para erradicação da varíola[3]. Doença que na época matou muita gente, principalmente crianças, quando acometidas não chegavam à fase adulta. Por fim, através das experiências do médico inglês Edward Jenner, em 1796, a vacina contra a varíola foi descoberta.

“...Bactérias e todas as formas de vida
Terra e todos os planetas
Galáxias presentes, distantes
Galileu Galilei, uma viagem às estrelas...”

      O médico observou que as vacas possuíam nas tetas, feridas semelhantes às que a doença provocava em humanos, numa versão mais leve. As mulheres, responsáveis por ordenhar vacas, se infectavam com a varíola bovina e se tornavam imunes ao vírus humano. Assim, Jenner recolheu o líquido que saía das feridas das vacas e aplicou nos arranhões que fez no braço de um menino que teve um pouco de febre, mas se recuperou rapidamente.
      O cientista foi além, recolheu secreção da ferida de um homem infectado e novamente expôs o menino ao material. Algumas semanas depois, o menino que anteriormente havia tido contato com o vírus da doença, passou por essa experiência imune. Dessa forma iniciou-se o processo de imunização em massa utilizando o antígeno[4] causador da doença como estímulo ao sistema imunológico na produção dos anticorpos que levam à imunidade.

“...Oh! Importante ciência estrangeira
Erguido está o castelo
Manguinhos, outrora manguezal
Sonho do cientista brasileiro...”

      O termo vacina deriva de vacca no latim. O que a vacina faz após ser inoculada nas pessoas, é gerar imunidade sem que elas fiquem doentes. Com essa descoberta muitos foram salvos da varíola, no passado, e de tantas outras doenças no presente.
      Todavia, toda novidade causa um certo temor e na época muitos tinham receio de após vacinados, serem infectados pelo vírus e de fato adoecerem. Foi o que aconteceu em 1904, na Cidade do Rio de janeiro, no episódio denominado a “Revolta da Vacina”. O médico sanitarista Oswaldo Cruz decidiu executar uma grande empreitada sanitária, com a finalidade de higienizar e modernizar a região.
      O projeto consistia em retirar as pessoas das ruas e eliminar ratos, mosquitos e outros animais tidos como maléficos. Depois submeter a população, de forma obrigatória, à vacinação contra febre amarela, peste bubônica e varíola. A população reagiu com protestos violentos, fazendo o governo rever a obrigatoriedade da vacina.

“...Símbolo de grande estima
expresso na arquitetura
na arte dos belos mosaicos e vitrais
Newton, Einstein e todos os pais...

      Hoje, sabemos que a experiência da vacinação em massa fez com que muitas doenças deixassem de ser um problema de saúde pública. Sabemos também, que o resultado disso vai muito além de evitar as doenças do momento. Pois interfere diretamente na economia do país, quando encarada como investimento. De fato, ao proporcionar gerações futuras saudáveis, o Estado economiza significativamente nesse setor, sobrando assim recursos para outras áreas como a da educação.
      Doenças como Poliomielite, Sarampo, Rubéola, Caxumba, Tétano e Coqueluche são exemplos comuns que causaram sérios problemas no passado e que a geração atual só ouve falar nos livros didáticos. Já que, com o processo sistemático de vacinação, todas essas e algumas outras são consideradas erradicas ou controladas.
      Porém, nem tudo são flores. Em pleno século XXI, com toda evolução humana fundamentada nas teorias neomodernistas e neoliberais. Com todo avanço tecnológico e científico, desenvolvido nos países ricos e nos países em desenvolvimento, vivemos um retrocesso político, social e cultural. Nesse sentido, é possível perceber o movimento pendular[5] na história. Esse fenômeno nos leva crer que não há um desenrolar de fatos em linha reta, conforme a crença positivista e evolucionista de “progresso” e “evolução”. Com base na concepção de movimento pendular da história, podemos dizer que atualmente vivemos uma forte tendência do movimento em direção à direita do espectro político, social e cultural.

“...Pasteur se visse invejaria
Oswaldo Cruz, vida polêmica e gloriosa
Trajetória de serviços à ciência
da academia imortal...

      Isso significa que movimentos com bases no nazismo nacionalista, na família tradicional e no fundamentalismo religioso, estão de volta e ganham forças, principalmente, cada vez que um de seus representantes chega ao poder político central. Por isso, temos visto crescer, nos últimos anos, no Brasil e no mundo o preconceito étnico, a homofobia e tantas outras formas de discriminação que geram violência. Entre estas, a resistência à vacinação, como a que ocorreu no início de século XX, na cidade do Rio de Janeiro.
      Tamanha ignorância pode trazer de volta muitas doenças infecciosas que pessoas nascidas a partir do final do século XX, podem nunca ter tido contato devido as constantes campanhas de vacinação que foram capazes de controlá-las. As doenças estão por aí e ainda fazem vítimas em alguns lugares no mundo, principalmente nos mais pobres. Uma pessoa não vacinada pode ser a porta de entrada de doenças já eliminadas.

“...Voz primeira da questão sanitária
Combatente das muitas epidemias
Destemidas campanhas de vacinação
“Quebra-lampião” a rebelião dos ignorantes...

      As vacinas são totalmente seguras. Pois, toda vacina licenciada foi antes testada por diversas fases de avaliação, garantindo dessa forma toda segurança. A vigilância de eventos adversos após a liberação da vacina, caso necessário, ocorre por meio de processos capazes de rastreamento do produto.
      Sendo assim, não há por que tamanho retrocesso político, social e cultural, principalmente, quando o assunto é nossa própria vida.

“...Há murmúrios nas ruas
A notícia ganha letras garrafais
nas primeiras páginas dos jornais
Qual importante à cultura de um povo...


Imortal

Noites em silêncio
dias inteiros sonhei
Viajei em minha astronave deslumbrante
milhões de imagens vislumbrei...

Bactérias e todas as formas de vida
Terra e todos os planetas
Galáxias presentes, distantes
Galileu Galilei, uma viagem às estrelas...

Oh! Importante ciência estrangeira
Erguido está o castelo
Manguinhos, outrora manguezal
Sonho do cientista brasileiro...

Símbolo de grande estima
expresso na arquitetura
na arte dos belos mosaicos e vitrais
Newton, Einstein e todos os pais...

Pasteur se vise invejaria
Oswaldo Cruz, vida polêmica e gloriosa
Trajetória de serviços à ciência
da academia imortal...

Voz primeira da questão sanitária
Combatente das muitas epidemias
Destemidas campanhas de vacinação
“Quebra-lampião” a rebelião dos ignorantes...

Há murmúrios nas ruas
A notícia ganha letras garrafais
nas primeiras páginas dos jornais
Qual importante à cultura de um povo...



REFERÊNCIAS:
VICTORIO, J. C. Sobre o Rio que Falo... editora EDITAL, Rio de Janeiro, 2015.
SEVENKO. N. A Revolta da Vacina, editora UNESP, São Paulo, 2018.
UJVARI, S. C. A História e Suas Epidemias, 2ª edição, Senac rio, Rio de Janeiro, 2003.
AZILDE L. Andreotti. O Pêndulo da História – Tempo e Eternidade no Pensamento Católico (1800-1960). Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/es/v26n93/27292.pdf> acesso em novembro de 2019.

* Professor, escritor e poeta.

[1] Diz-se daquilo que possui propriedades capazes de induzir o aparecimento de doenças.
[2] Proteínas que atuam no sistema imunológico como defensoras do organismo vivo contra bactérias, vírus e outros corpos estranhos.
[3] A varíola, também chamada de bexiga, é uma doença infectocontagiosa causada pelo vírus Orthopoxvirus variolae. Ao lado da peste negra, tuberculose e AIDS, a varíola é considerada uma das doenças mais mortais do planeta. Ela afeta o sistema imunológico provocando diversas deformações na pele.
[4] Substância ativa (vírus atenuado ou morto) que, introduzida no organismo, provoca a formação de anticorpos.
[5] O movimento oscilatório do pêndulo tende para o equilíbrio e quanto maior é o ângulo total de oscilação do pêndulo, maior e mais vigoroso é o movimento de retorno do pêndulo à posição oposta.

Bíblia: a Escritura Sagrada Inspirada por Deus. João Crispim Victorio – Professor, Especialista em Educação. “Toda Bíblia é comunicação de ...