quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Óbvio e lógico, problemas para gestão escolar.
João Crispim Victorio[i]

          Tenho escutado, muitas vezes, o uso do termo “óbvio” ou “lógico” durante as conversas com meus pares, seja em situações informais na sala dos professores ou nas formais, nos Conselhos de Classes e Centros de Estudos. Mas qual o significado destas duas palavras? Refiro-me a relação que estas palavras, tão usadas de forma banal em nosso meio, têm com a ideologia neoliberal, carregada de preconceitos, discriminação e marginalização da pessoa humana.

          Para tal missão recorri ao meu velho e bom amigo “Aurélio”, dele pude extrair que a palavra óbvio é um adjetivo que significa “o que salta à vista”, ou seja, o que é “claro”, e que a palavra lógico também é um adjetivo e significa “conforme à lógica”, “que raciocina com justeza” ou seja, o que é “coerente”, “natural” ou “inevitável”. Examinando ao “pé da letra”, parece ser muito simples o entendimento de ambos os significados, pessoas menos esclarecidas podem, até pensar: não vejo nada demais. Mas, em se tratando de educadores, pessoas que passaram em média quatro anos de suas vidas se preparando para o magistério, não dá para aceitar este pensamento tão simplista assim.

          Devemos lembrar que a profissão docente exige, no mínimo, compreensão da organização social e política da nossa sociedade, da organização estrutural do nosso sistema de educação, além, do entendimento que, a educação não é um campo neutro ou apolítico, conforme muita gente acredita ser, ao contrário, educar é um ato político e, segundo Paulo Freire[1] (1997), “... pode implicar tanto o esforço da reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento”. Portanto, neste caso é interessante que fiquemos na ignorância, acreditando na impossibilidade de inverter sua lógica perversa de exclusão. Citando ainda, Paulo Freire, "como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha". Isso significa dizer que não é possível formar um indivíduo, trazê-lo à luz, para ser capaz de interferir na sociedade politicamente, como reza os documentos oficiais da educação brasileira, se o próprio educador ainda não entendeu o processo e só consegue enxergar sombras deformadas pela pouca luz que entra na sua caverna.

          Um bom exemplo, para ilustrar o que estou falando, é quando, muitas das vezes, com olhar preconceituoso, julgamos nosso aluno pela aparência física, pela cor da pele, pelas roupas que veste ou pelo lugar onde mora. Nesse julgamento dizemos logo: “é óbvio que esse aluno não vai chegar a lugar algum. Não vai aprender nada”, “vai ser um analfabeto funcional”. Ora, estamos aqui seguindo a lógica do pensamento dominante e com que facilidade nos eximimos de nossa parcela de responsabilidade, enquanto educadores e membros ativos, que deveríamos ser, dessa sociedade cada vez mais injusta. Para Paulo Freire (1997), “do ponto de vista dos interesses dominantes, não há dúvida de que a educação deve ser uma prática imobilizadora e ocultadora de verdades”. Sendo assim, não podemos aceitar como óbvio esse sistema de exclusão social, que nos é imposto por meio de uma escolarização pública deformada[2], orientada por organismos internacionais de ideologia neoliberal que quer manter o poder político nas mãos das elites intelectuais e financeira do nosso país. Precisamos reagir a essa situação, isso se faz urgente, para tanto é necessário entendermos a importância da nossa participação política nesse processo de mudança. Porém, para que as mudanças ocorram é necessário que façamos algumas pequenas modificações em nossa prática cotidiana, enquanto educadores, na sala de aula e enquanto gestores da unidade escolar. Pois sabemos que as grandes transformações, como por exemplo, a ruptura com o modelo atual de educação só ocorrerá quando nossa sociedade acordar e sair da ilusão do berço esplêndido.

          Muitas das vezes agimos de forma equivocada e até mesmo ingênua, favorecendo o modelo perverso de exclusão, quando aderimos ao que é tido como óbvio na organização escolar. A formação das classes, por exemplo, achamos que se deva respeitar, principalmente, o critério da faixa etária do educando, o que nos parece lógico e, isso, vai se repetindo ao longo de sua permanência na escola. Ou seja, numa escola que forma seis turmas de quinto ano, a maioria dos educandos que compõem a 1501, seguirá assim até a 1901, as raras exceções são daqueles que por motivo de retenção ou evasão quebram essa sequência. Neste sentido, as primeiras turmas formadas, que compreende da 1501, provavelmente até a 1504, são consideradas, as com os “melhores” alunos. O óbvio, aqui, na verdade é que essa lógica gera consequências ruins, como a formação dos “guetos” por alunos rotulados bons, regulares e ruins. Além de parecer que é óbvio, os professores mais antigos, considerados dentro da lógica do justo, os mais preparados e experientes no domínio de turmas e de conteúdos, receberem como “prêmio” sempre as primeiras turmas, enquanto que os mais novos e inexperientes ficam com as outras. O resultado, muitas das vezes, é a exoneração precoce dos professores novos ou, pior, baixas na psiquiatria.

          Estas atitudes seguidas, sem questionamentos, por professores e gestores, como óbvias, não me parece lógica em relação à coerência profissional. Sendo assim, não devemos montar turmas formadas apenas por alunos repetentes do ano anterior e por aqueles que, por algum motivo, se encontram defasados com relação ao ano de escolaridade e a idade. Este simples movimento extirparia do nosso meio um dos problemas mais grave que atrapalha, diretamente, a gestão escolar. Ao acabar com os “guetos” de alunos rotulados, que só favorecem a evasão escolar, estaremos melhorando as relações de convivência entre professores e alunos, professores e professores, alunos e alunos, numa situação de respeito e harmonia, até por que se queremos ser respeitados pelos alunos, devemos respeitá-los, também. De forma indireta, haverá melhoraria nas ocorrências dos mais variados tipos de violência que acontecem na escola e fora dela, o que facilitaria o desenvolvimento pedagógico do processo ensino-aprendizagem.

          Precisamos pensar seriamente nisso. Somos formadores e o futuro dos jovens, queiramos ou não, depende de nós, das nossas atitudes e dos nossos exemplos enquanto cidadãos com direitos e deveres, enquanto seres humanos com necessidades de receber e dar carinho e enquanto professores cientes da nossa missão. Se nos sentimos desrespeitados pelo nosso sistema educacional, não é desrespeitando nossos alunos que vamos resolver o problema. Não é com atitudes corporativistas que vamos melhorar nossas condições de trabalho e de salário. As atitudes que tomamos, muitas das vezes, com base no óbvio e no lógico, podem ser uma armadilha, um tiro no próprio pé, pois, não podemos esquecer que as palavras não têm somente seus valores semânticos, mas também ideológicos no sistema vigente.


Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2015.



[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

[2] Deformada no sentido de querer manter um sistema de educação dual. Para os pobres basta saber ler, escrever e fazer as operações básicas da matemática e para os ricos um ensino que prepare para a graduação e a pós-graduação.

[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

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